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SUA VIDA COMO AGENTE DO BOPE NO DIA 28 DE OUTUBRO DE 2025

12:14Portuguese (Portugal, Brazil)Transcribed Jul 23, 2026
0:00

Nível um, a convocação.

0:03

Você tem 31 anos, sargento do BOP, 8

0:06

anos de corporação, quatro dentro do

0:09

batalhão de operações especiais. A

0:11

caveira no boné não é enfeite, é

0:13

contrato. Você sabe o que assinou quando

0:16

entrou? Na madrugada de 27 para 28 de

0:19

outubro de 2025, seu celular toca às

0:22

2:40 da manhã. Número do batalhão. Você

0:26

atende antes do segundo toque porque

0:28

aprendeu que ligação de madrugada do

0:30

batalhão não espera segundo toque. Voz

0:33

do plantão. Concentração geral às 4

0:35

horas. Equipamento completo. Você não

0:38

pergunta por não é assim que funciona.

0:41

Você veste o uniforme no escuro para não

0:43

acordar sua esposa. Ela acorda mesmo

0:46

assim. Fica de lado na cama, olhando

0:48

para você se equipar sem falar nada. Já

0:51

fez isso antes? Sabe quando perguntar e

0:54

sabe quando ficar em silêncio. Você dá

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um beijo na testa dela, sai. Na garagem,

0:59

você olha pro carro por 2 segundos antes

1:02

de entrar. É um hábito. Checa embaixo,

1:05

checa em volta. 8 anos de BOPE ensinam

1:08

que paranoia e cautela às vezes são a

1:10

mesma coisa. Você entra no carro e

1:13

dirige para o batalhão no escuro da

1:14

madrugada carioca. Nível dois, o

1:17

briefing. 4:15 da manhã, pátio do BOP.

1:21

Você nunca viu aquele pátio tão cheio.

1:24

Não é só o BOPE. Tem polícia civil,

1:26

polícia militar convencional, batalhão

1:28

de choque. 2500 agentes no total. Para

1:32

uma operação desse tamanho, você sabe

1:34

que o alvo não é pequeno. O comandante

1:37

sobe no palanque improvisado. Fala

1:39

rápido. Operação contenção. Objetivo:

1:42

conter o avanço do comando vermelho nos

1:44

complexos do alemão e da Penha. 100

1:47

mandados de prisão, 26 comunidades. Foco

1:50

nos líderes da facção. Alvo principal,

1:53

Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos

1:56

chefes do CV no Rio. Você escuta e

1:59

processa 100 mandados, 26 comunidades,

2:03

dois complexos interligados que somam

2:05

mais de 100.000 moradores, terreno que

2:07

você conhece, becorreu,

2:10

mata fechada entre o alemão e a Penha

2:12

que o CV usa como rota de fuga há anos.

2:15

O Bop fica com a parte da mata. O topo

2:18

do morro é o termo que o comandante usa.

2:21

Você e sua equipe entram pelo alto e

2:23

fecham a saída norte da mata enquanto a

2:25

PM convencional empurra pelo baixo. Você

2:28

pega o mapa, estuda por 15 minutos,

2:30

memoriza os pontos de entrada, as rotas

2:33

de extração, os pontos de apoio médico.

2:36

Às 5:30 da manhã, os ônibus partem.

2:39

Nível três, a entrada. 5:59 da manhã.

2:43

Você desce do blindado na base de acesso

2:45

ao complexo do alemão. Ainda está

2:47

escuro, mas o céu começa a clarear no

2:49

leste. Você ouve tiro antes de ouvir

2:52

qualquer comando. O CV já sabe que a

2:54

operação chegou. Comunicação explode no

2:57

rádio. Múltiplos pontos de contatos

2:59

simultâneos. A PM convencional já está

3:02

engajada em pelo menos cinco frentes

3:04

diferentes no nível baixo. Você recebe

3:07

ordem de avançar para a área de mata no

3:09

topo do morro com sua equipe de oito

3:11

agentes. Você começa a subir. A mata

3:14

entre o alemão e a Penha é densa,

3:16

fechada, com trilhas que só quem conhece

3:18

sabe onde levam. Você conhece algumas, o

3:21

CV conhece todas. Quando chega na

3:24

primeira posição elevada, a cidade lá

3:26

embaixo já está em guerra. Você vê

3:29

fumaça em pelo menos três pontos

3:30

diferentes. Houve helicóptero

3:32

sobrevoando, comunicação constante, tiro

3:35

vindo de direções que você não consegue

3:37

localizar com precisão. Você posiciona

3:40

sua equipe, fecha a saída norte da mata.

3:42

Espera. O plano é simples. A PM empurra

3:46

pelo baixo, o CV foge pela mata. Vocês

3:49

estão no topo esperando. Simples no

3:51

papel. Nível 4, a mata. 7:30 da manhã.

3:56

Primeira entrada de fugitivos pela mata.

3:58

Não, um, não, dois. Grupos de quatro,

4:01

cinco homens armados tentando romper o

4:03

perímetro pelo alto. Fuzis, pistolas,

4:06

pelo menos um com granada. Você e sua

4:09

equipe engajam. Confronto em terreno

4:11

fechado. Visibilidade de 10 m em alguns

4:14

pontos, menos em outros. O tiro que

4:17

passa na sua direita raspa na árvore a

4:19

meio metro de você. Você se joga, se

4:21

reposiciona, responde, o rádio não para.

4:25

Pedido de reforço aqui, médico ali,

4:27

posição comprometida no setor dois. Você

4:30

ouve o nome do seu companheiro de outra

4:32

equipe sendo chamado no rádio em tom que

4:34

você reconhece, tom emergência. Você não

4:37

tem tempo para perguntar o que

4:39

aconteceu. Sua equipe segura o perímetro

4:41

por 2:40 de confronto intermitente. A

4:45

mata está cheia de gente tentando sair.

4:48

Alguns conseguem romper por outros

4:50

pontos, a maioria não. Às 9:15 você

4:53

recebe informação pelo rádio que vai

4:55

ficar com você pelo resto do dia. Dois

4:58

sargentos do BOP foram baleados em

5:00

confronto na área de mata do alemão.

5:02

Cleiton Serafim Gonçalves, 42 anos. Éber

5:06

Carvalho da Fonseca, 39 anos, ambos do

5:09

seu batalhão. Cleiton, você conhecia

5:11

pelo nome e pelo rosto. Jogou futsal com

5:14

ele num torneio interno há três meses.

5:16

Eles não resistiram. Você recebe a

5:19

informação, respira fundo, não fala

5:21

nada. Sua equipe está te olhando. Você

5:24

faz o sinal de continuar e continua.

5:27

Nível cinco, o morro. 11:30 da manhã.

5:31

Você está no topo do morro há mais de 5

5:33

horas. A operação está em andamento em

5:35

toda a extensão dos dois complexos. O

5:37

rádio traz número crescente de

5:39

confrontos, de presos, de baixas. Você

5:42

não tem número total. Você não quer ter

5:44

número total agora, porque número te

5:46

tira o foco e você precisa do foco.

5:50

Drones sobrevoam sua posição, não os

5:52

seus, os do CV. Eles usam drones para

5:55

mapear onde estão as equipes policiais e

5:57

para lançar bombas artesanais. Você já

6:00

sabia disso no briefing? Saber e ver são

6:03

coisas diferentes. Você vê o drone antes

6:05

de ouvir, pequeno, civil, modificado,

6:09

passa a 30 m de altura. Você avisa a

6:11

equipe, todos cobrem. O engenho cai 15 m

6:15

à esquerda da sua posição. A explosão é

6:17

baixa, mais barulho que poder

6:19

destrutivo, mas é explosão. Seu ouvido

6:22

direito fica zunindo por 20 minutos. Ao

6:25

meio-dia, a operação começa a mudar de

6:28

fase. A PM convencional empurrou tudo

6:30

que conseguiu para cima. A mata está

6:33

cheia. Você está no centro de uma

6:35

operação que é maior do que qualquer

6:36

coisa que você já participou. Maior que

6:39

Vila [música] Cruzeiro em 2022, maior

6:41

que Jacarezinho em 2021. Você sente o

6:45

tamanho enquanto acontece. Às 13 horas,

6:48

você recebe ordem de avançar para dentro

6:50

da mata e fazer varredura. Você avança.

6:53

Nível seis. A varredura. O que você

6:56

encontra na mata, você não vai esquecer.

6:59

Você não vai esquecer não porque é a

7:01

primeira vez que vê morte. Você tem 8

7:04

anos de bope. Você já viu morte. Você

7:06

não vai esquecer porque a escala é

7:08

diferente, a quantidade é diferente. A

7:12

mata entre o alemão e a penha que você

7:14

tá varrendo tem corpo em cada clareira,

7:17

em cada trilha larga o suficiente para

7:20

correr. Você não conta enquanto caminha.

7:23

Você registra a posição, verifica se há

7:26

risco ativo, avança pro próximo ponto.

7:29

Isso é o protocolo. Você segue o

7:31

protocolo porque se parar para processar

7:34

o que tá vendo, não consegue continuar

7:36

andando. Às 15 horas, a varredura da sua

7:39

área está completa. Você sai da mata

7:42

pelo ponto norte, onde entrou pela

7:44

manhã, senta na beira de uma pedra, tira

7:47

o capacete e bebe água. Seu companheiro

7:51

de equipe mais novo, 24 anos, 2 anos de

7:54

corporação, senta do seu lado, não fala

7:57

nada por 5 minutos, depois pergunta: "É

8:01

sempre assim? Você pensa antes de

8:03

responder. Pensa em Cleiton, pensa na

8:06

mata, pensa nos 8 anos que te trouxeram

8:10

até aquela pedra naquele morro. Você

8:13

responde: "Não, porque não é. Aquele dia

8:17

é diferente de tudo que veio antes e

8:19

você sabe que vai ser diferente de tudo

8:22

que vem depois também. Nível 7, a

8:25

descida. 17:30

8:28

você desce o morro. A cidade lá embaixo

8:30

tá diferente. Fumaça em vários pontos,

8:34

ônibus atravessados em cruzamentos que

8:36

você vê dali de cima. Vias bloqueadas. O

8:40

caos que o CV acionou em retaliação

8:43

espalhado pela zona norte e além. Você

8:45

chega na base de apoio. Primeiro número

8:48

oficial que você ouve, 64 mortos

8:51

confirmados até aquele momento. Quatro

8:54

policiais entre eles. Dois do BOP,

8:57

Cleiton e Hebber. Você come alguma coisa

9:01

que não sabe dizer o que era. Sente o

9:03

gosto de pó e sal. Seu uniforme tá sujo

9:07

de terra vermelha da mata. Suas botas

9:09

estão pesadas.

9:11

Às 18 horas, você recebe ordem de

9:14

permanecer em prontidão na base.

9:16

Operação ainda ativa em pontos do

9:18

complexo. Você fica sentado no banco de

9:21

madeira da base de apoio, rádio no colo,

9:25

aguardando. Às 19 horas, o celular

9:28

pessoal vibra no bolso. Você tirou do

9:31

silencioso para ver se sua esposa

9:33

mandava mensagem. Ela mandou às 14

9:35

horas. Vi no jornal. Me liga quando

9:38

puder. Você digita: "Tô bem, mais tarde.

9:43

Não manda mais nada porque mais tarde

9:45

ainda não chegou. Nível 8, à noite.

9:48

22:40.

9:50

Você chega em casa. Sua esposa tá

9:52

acordada na sala com a televisão ligada

9:55

no jornal. Ela se levanta quando você

9:58

entra. Olha pro seu uniforme, pra sua

10:00

cara, paraas suas mãos, não pergunta

10:03

nada. Abre os braços. Você aceita o

10:06

abraço e fica parado ali por um tempo

10:09

que não sabe medir. Você toma banho. A

10:12

água que sai de você é escura de terra e

10:15

mata. Você fica debaixo do chuveiro mais

10:18

tempo do que o necessário. Deixa a água

10:21

quente esgotar.

10:23

Você senta na beirra da cama. Seu filho

10:25

de 4 anos está dormindo no quarto ao

10:27

lado. Você ouve a respiração dele pelo

10:30

monitor que sua esposa deixou ligado.

10:33

Amanhã os jornais vão chamar o dia de 28

10:36

de outubro de 2025 de muitas coisas.

10:40

Operação mais letal da história do

10:42

Brasil. Chacina, sucesso, fracasso. Cada

10:46

um vai chamar de uma coisa dependendo de

10:49

onde tá sentado. Você não sabe como

10:52

chamar ainda. Você tava dentro. Não,

10:54

fora. E quem tá dentro não tem o ângulo

10:57

de quem tá fora. Você tem o ângulo da

11:00

mata, do tiro, do rádio, da pedra onde

11:03

sentou às 15 horas, do companheiro de 24

11:07

anos que perguntou se era sempre assim.

11:10

O que você sabe? Cleiton Serafim

11:12

Gonçalves tinha 42 anos e jogava futsal

11:16

mal demais paraa posição de goleiro, mas

11:18

gargalhava quando levava gol como se

11:20

fosse a coisa mais engraçada do mundo.

11:23

Hebber Carvalho [música] da Fonseca

11:25

tinha 39 anos e uma filha de sete. Você

11:29

não sabe o nome da filha. Pensa que

11:31

deveria saber. O dia 29 de outubro vai

11:34

chegar em poucas horas. Vai ter mais.

11:37

Vai ter corpo sendo encontrado na mata

11:39

pela manhã. Vai ter número [música]

11:41

subindo, vai ter pergunta que não vai

11:44

ter resposta limpa. Você não sabe de

11:47

nada disso ainda. Você tá sentado na

11:49

beira da cama às 23 horas de uma

11:52

terça-feira [música] com o som da

11:54

respiração do seu filho no monitor e o

11:56

peso de um dia que não coube num dia.

11:59

Você deita, fecha os olhos, os unido no

12:03

ouvido direito ainda não passou. Você

12:05

dorme porque o corpo não aguentaria mais

12:08

ficar acordado. Não porque a cabeça

12:10

deixou.

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