INTRODUÇÃO À FENOMENOLOGIA | HUSSERL | AULA 3 | EPOCHÉ E REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA
Introdução a fenomenologia.
Aula 3. Epoque e redução fenomenológica,
o colocar entre parênteses.
Seja bem-vindo de volta à nossa jornada
em busca de compreender a fenomenologia.
Queremos entender as bases
epistemológicas
daquilo que faremos dentro de um
consultório ou em uma pesquisa. Na
primeira aula, nós mapeamos a crise das
ciências [música] e a nossa teimosa
atitude natural que nos faz engolir o
mundo como um dado óbvio e indiscutível.
Na segunda aula, quebramos o dualismo
cartesiano com o conceito de
intencionalidade,
compreendendo que a consciência não é
uma caixa fechada, mas um feixe
direcional. Toda a consciência é
consciência de algo. Mas agora nos
deparamos com um obstáculo metodológico
brutal. Se estamos mergulhados na
atitude natural e se a nossa consciência
está o tempo [música] todo colada aos
objetos do mundo por meio da
intencionalidade,
como é que nós podemos dar um passo para
trás para analisar esse processo de
forma puramente científica e objetiva?
Como podemos estudar a experiência sem
contaminá-la com as nossas crenças
prévias, com os nossos preconceitos
teóricos e com a nossa urgência em
diagnosticar?
É exatamente para resolver esse problema
epistemológico que Edmund Russell
desenvolve a sua ferramenta mais afiada,
mais exigente e, francamente mais
difícil de ser aplicada na prática. O
método da epoquê e da redução
fenomenológica.
Eu sou Jeferson Graim, estudante de
psicologia e seu melhor amigo na busca
pelo conhecimento da ciência da
psicologia [música] em suas várias
faces. E essa é a nossa aula três.
Prepare-se para aprender a colocar o
mundo entre parênteses. O problema do
ponto de partida. Para nós estudantes de
psicologia, a formação acadêmica muitas
vezes funciona como um acúmulo de
lentes. No primeiro semestre, colocamos
a lente da psicanálise e passamos a ver
recalques e atos falhos em tudo. No
semestre seguinte, colocamos a lente do
behaviorismo e começamos a analisar
contingências e reforços. Depois
colocamos a lente da psicopatologia
clássica e passamos a enxergar critérios
do DSM5 caminhando pela rua. Essas
lentes são teorias e as teorias são
construtos científicos que tentam
explicar a realidade. O problema é que
quando o paciente senta na nossa frente,
[música] a nossa tendência imediata, ou
seja, a nossa atitude natural teórica,
[música]
é pegar a experiência daquela pessoa e
enfiá-la a força dentro da caixa da
teoria que mais nos adaptamos. Nós não
ouvimos o paciente. Nós ouvimos a nossa
própria teoria sendo confirmada pela
fala dele. Russell percebeu que a
ciência do seu tempo sofria desse mesmo
mal. Os cientistas partiam de
pressupostos não questionados.
Para que a fenomenologia fosse uma
ciência rigorosa, uma ciência das
essências e idética, ela precisava de um
ponto de partida livre de
pressuposições.
Mas como você esvazia a mente de todos
os pressupostos?
Como você apaga a sua história, a sua
cultura e os seus anos de faculdade? A
resposta curta e direta de Russell é:
você não apaga, você suspende.
Apoque, a suspensão do juízo. A palavra
epoque não foi inventada por Rússia.
Ela vem do grego antigo e era utilizada
pelos filósofos céticos pirônicos. Para
os céticos clássicos, como a verdade
absoluta era inatingível, a única
postura sábia era a suspensão do juízo.
E por quê? Sobre todas as coisas para
alcançar a tranquilidade da alma.
Russell resgata esse termo, [música]
mas retira dele o caráter cético e
desistente. A epoque russeliana não é
duvidar que o mundo existe, não é achar
que tudo é uma ilusão, como no filme
Matrix. A epoque fenomenológica
é uma decisão metodológica, é um ato
volitivo, um esforço intelectual
deliberado de suspender a crença na
existência objetiva do mundo e das
teorias sobre ele. Vamos usar a metáfora
matemática que o próprio Russell, como
ex-matemático, adorava. A metáfora dos
parênteses. Imagine uma equação
algébrica complexa. Quando você coloca
uma parte dessa equação entre
parênteses, você não está apagando
aqueles números. Eles continuam lá
intactos. Mas ao colocá-los entre
parênteses, [música]
você os isola temporariamente para poder
resolver o resto da equação ou para
analisar a estrutura externa a eles. O
parêntese coloca fora de ação a operação
imediata daquele conjunto. [música]
Explicar a epoque fenomenológica
significa colocar o mundo empírico, a
atitude natural e as nossas teses
científicas. Entre [música] parênteses,
nós não negamos que a árvore lá fora
existe. Nós não negamos que a gravidade
puxa as coisas para o chão. Nós apenas
dizemos para os fins desta análise
fenomenológica,
eu não vou afirmar nem negar a
existência factual dessa árvore ou dessa
lei física. Eu vou suspender a validade
dessas teses. Eu vou neutralizar a minha
crença imediata nelas. Mas por que fazer
isso?
Porque ao suspender o juízo sobre a
realidade factual do mundo, o que sobra?
Sobra o fenômeno puro. Sobra a
experiência do mundo tal como ela se dá
na minha consciência. O desafio
acadêmico e não romântico da Epoque.
Aqui precisamos ser extremamente
rigorosos e combater uma visão
romantizada que assombra muitos
estudantes de psicologia. Muitos
confundem a epoque com empatia, com
ouvir de coração aberto ou com algum
tipo de meditação zem budista onde vocês
vaziamente. Não é nada disso. A epoque é
um trabalho intelectual árduo, é uma
vigilância epistemológica constante.
Esvaziar a mente é impossível e não é o
objetivo da fenomenologia. O objetivo é
a neutralização
da tese da atitude natural. Pense na
prática clínica. Quando um paciente
relata algo, aque exige de você uma
disciplina mental férrea. Requer que
você observe ativamente os seus próprios
preconceitos, as suas próprias
categorias diagnósticas pipocando na sua
cabeça e diga a si mesmo: parênteses
nisso. Não se trata de ignorar o seu
conhecimento de psicopatologia.
Trata-se de não permitir que esse
conhecimento atue como um filtro
distorcedor [música]
no exato momento da apreensão da
experiência do outro. Você suspende a
validade da teoria para que o fenômeno,
o relato, a angústia, a dor, o gesto
possa se mostrar exatamente como ele é,
a partir de si mesmo e não a partir do
que você acha que ele deveria ser.
A redução fenomenológica, o retorno à
consciência. Muitas vezes, epoque e
redução fenomenológica são usadas como
sinônimos. Mas para termos precisão
acadêmica, [música] precisamos entender
a diferença entre as duas. A epoque é o
movimento negativo. O ato de suspender,
de barrar a atitude natural é o colocar
entre parênteses. Já a redução
fenomenológica é o movimento positivo
que se segue aque
recondução do latim reducere, conduzir
de volta do olhar. É a redução do olhar.
Uma vez que eu suspendi o mundo exterior
como o fato objetivo, aque para onde eu
olho? Eu conduzo o meu olhar de volta
para a consciência intencional, para o
modo como esse mundo se apresenta para
mim. A redução fenomenológica é a
passagem da atitude empírica para a
atitude fenomenológica transcendental.
é o ato de restringir a minha análise
puramente à esfera da consciência
doadora de sentido. Vamos traduzir esse
vocabulário denso de ideias para um
exemplo clínico, porque é isso que nos
interessa enquanto futuros psicólogos.
Vamos essa aplicação clínica. A epoque
no consultório. Imagine a seguinte
situação. Você está no seu estágio
clínico supervisionado. Entra um
paciente que relata com evidente
sofrimento que está sendo perseguido
pelos vizinhos. Ele afirma que os
vizinhos instalaram câmeras invisíveis
nas tomadas do apartamento dele e que
acompanham todos os seus passos.
A reação na atitude natural sem a EPOQ
seria: [música]
o estudante de psicologia focado no
modelo médico objetivista aciona
imediatamente seus conhecimentos
prévios. [música] Ele avalia o relato
com a régua da realidade objetiva.
Primeiro, fato objetivo. Não existem
câmeras invisíveis em tomadas. Segundo a
conclusão, o paciente está desconectado
da realidade objetiva. Terceiro, ação,
enquadrar o relato como um delírio
persecutório, provavelmente
esquizofrenia, paranoide, e focar no
manejo do sintoma psiquiátrico. Nessa
atitude, o conteúdo do que o paciente
diz perde totalmente o valor como
experiência humana. A fala dele é
tratada apenas como um sinal de uma
máquina cerebral com defeito. Você não
investiga o ser perseguido, você
investiga o erro de percepção, [música]
a reação na atitude fenomenológica.
Então vamos ao aí analisar esse caso
clínico com a hipoque e redução
fenomenológica.
Agora vamos então aplicar esse método
rigoroso de Russell. Primeiro, através
da epoque, você coloca a questão da
existência factual das câmeras
invisíveis, entre parênteses. Você, como
psicólogo fenomenólogo, simplesmente não
se importa se as câmeras são fisicamente
reais ou não. Você suspende o seu juízo
sobre a materialidade do fato. Você
também coloca, entre parênteses, o
conceito prévio de esquizofrenia.
[música] Você suspende o manual
diagnóstico e com a redução
fenomenológica, o que sobra quando você
suspende a realidade física e a teoria
[música] médica? Sobra o fenômeno da
perseguição, tal como ele é vivido pela
consciência daquele sujeito. Sobra uma
experiência autêntica, innegável e
aterrorizante de ser vigiado, invadido,
destituído de privacidade, transformado
em objeto do olhar alheio constante. A
partir desse momento, a sua investigação
clínica muda de rumo. Em vez de
perguntar como provo para ele que as
câmeras não existem, você passa a
investigar fenomenologicamente
como é estruturado esse mundo onde a
privacidade não existe. Qual é o sentido
de ser constantemente o alvo do olhar do
outro? Como esse eu se experimenta
diante de uma ameaça onipresente? A
redução fenomenológica permite que você
avalie a experiência do paciente sem
precisar validar a realidade material do
delírio. Para a consciência dele, o
estar perseguido é um fenômeno 100%
real. [música] E é com esse fenômeno
real, com essa doação de sentido
estruturada pelo terror que você vai
trabalhar terapeuticamente.
A desconstrução do eu empírico. Um ponto
fundamental da redução fenomenológica
que Russell nos traz é que não
suspendemos apenas o mundo externo. Nós
temos que colocar nós mesmos, entre
parênteses, mais especificamente o nosso
eu empírico. Mas quem é o eu empírico?
Sou eu, estudante de psicologia, com meu
CPF, minha história de infância, meus
traumas, meus boletos para pagar, minha
fome às 11 da manhã, minhas preferências
políticas e religiosas. Se eu vou tentar
compreender a experiência intencional
[música]
pura, eu não posso deixar que o meu eu
empírico contamine a análise. Quando
fazemos a redução, Russell diz que
chegamos ao eu transcendental, [música]
uma estrutura pura de consciência que
apenas observa e descreve o fenômeno.
Obviamente, na prática clínica diária,
alcançar um eu transcendental absoluto é
uma utopia. E pensadores posteriores
como Merl Ponti criticarão Russel
justamente por isso, argumentando que a
redução completa é impossível, pois
estamos irremediavelmente
enraizados no mundo e no nosso corpo.
Apoque perfeita seria como tentar puxar
a si mesmo para cima, segurando pelos
próprios cabelos. Contudo, como
horizonte metodológico, como esforço
ético e acadêmico, a proposta de Russell
é indispensável. Ela nos obriga a criar
um observador interno durante os
atendimentos. Enquanto o paciente fala,
uma parte do psicólogo está prestando
atenção à própria escuta. [música]
Essa conclusão que eu estou tirando vem
do fenômeno que ele me apresenta ou vem
da minha própria ansiedade em fechar um
caso? vem da minha identificação pessoal
com a dor dele. A EPQ, portanto, exige
uma higiene epistemológica constante. É
o ato de limpar as lentes repetidamente
a cada sessão, a cada frase do paciente.
A conquista [música]
da descrição pura. Quando conseguimos
executar a epoque e a redução
fenomenológica com rigor, nós alcançamos
o prêmio metodológico da fenomenologia,
que é [música] a capacidade de realizar
uma descrição pura do fenômeno. Na
psicologia tradicional, nós
frequentemente explicamos antes de
descrever: "Se um adolescente chega
relatando tédio extremo e agressividade,
a psicologia explicativa pula
imediatamente para causas. é a
testosterona, é a falta de limites
paternos, é o mecanismo de defesa. A
fenomenologia
proíbe a explicação causal na primeira
etapa do trabalho. Ela nos impõe a regra
de ouro, voltar à coisas mesmas,
descrever com precisão milimétrica as
características daquele fenômeno do modo
exato como ele se doua a consciência.
Como esse tédio é sentido no tempo? Ele
acelera as horas ou as congela? Como
esse tédio altera a percepção espacial
do adolescente sobre o próprio quarto.
Essa descrição só tem validade
científica no sentido fenomenológico,
porque o método dos parênteses garantiu
que não fomos nós que injetamos essas
respostas no fenômeno. Essa aula foi
fantástica, [música] mas o que fizemos
aqui não foi poético, foi cirúrgico. Nós
dsecamos o método que permite a
fenomenologia existir como disciplina
rigorosa. Aprendemos que para estudar a
consciência intencional precisamos
aplicar a epoque, colocando a existência
empírica do mundo e as teses teóricas,
atitude natural, entre parênteses. E
aprendemos que a redução fenomenológica
é o ato subsequente de direcionar nosso
foco analítico exclusivamente para a
esfera da consciência transcendental e
para a experiência vivida, o fenômeno.
Para nós estudantes e futuros
profissionais, isso significa aprender a
domar a nossa ânsia explicativa.
Significa suportar angústia de não saber
diagnosticar de imediato em favor da
ética de compreender a estrutura de
sentido do outro. Mas aqui reside a
nossa próxima grande provocação
intelectual, [música] a ponte para o
nosso próximo passo. Se nós colocamos um
mundo material entre parênteses, se
suspendemos as teorias, se isolamos a
nossa análise na esfera da consciência,
o que sobra dentro dela? A consciência
não é uma gosma indiferenciada.
Ela tem uma arquitetura. A experiência
tem uma anatomia rigorosa. Quando eu,
reduzido fenomenologicamente
observo um ato de ódio, um ato de
memória ou um ato de amor, eu descubro
que essa experiência é sempre vivida em
duas engrenagens inseparáveis. De um
lado, ação de focar a consciência, do
outro, [música] o conteúdo que é focado.
Na nossa próxima aula, aula quatro, nós
vamos abrir a caixa da intencionalidade.
Vamos aprender a dessecar qualquer
experiência psicológica usando os dois
bisturis mais precisos de Edmund
Russell. Prepare-se para a aula quatro.
No e Noema, o ato e o conteúdo. Nela
vamos descobrir que a forma como você
percebe o ato altera visceralmente
aquilo que é percebido, o conteúdo. E
como isso é a chave mestre para
desvendar qualquer sofrimento clínico.
Eu sou Jefferson Gren, estudante de
psicologia e seu melhor amigo na busca
pelo conhecimento profundo da ciência da
psicologia em suas várias faces. E essa
aula foi a aula três. Já convido você a
acessar a aula quatro, que está
fenomenal,
muito boa, o ato e o conteúdo. Está
gostando dessa aula? Está gostando dessa
série de estudos sobre a fenomenologia?
Percebeu já? Com certeza. Você percebeu
a importância da fenomenologia paraa
nossa prática clínica, [música]
independente da abordagem que venhamos a
escolher. Então, compartilha no seu
grupo de faculdade, envia para os seus
amigos, comente aqui abaixo, se inscreva
no canal e curta o vídeo. Beba uma água,
estique a coluna e vamos para a aula
quatro, o ato e o conteúdo.
>> [música]
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