O QUE É DESAMPARO APRENDIDO?
Em alguns momentos da vida, é difícil acreditar que as coisas irão melhorar ou que temos o que
é necessário para enfrentar certos obstáculos. Depois de tomar tantas porradas da vida, alguns
se tornam desesperançosos, pessismistas e não esperam lá grandes coisas do seu próprio futuro.
Eu sou o André, tenho um doutorado em psicologia e hoje, com a ajuda do amigo
e psicólogo Victor Keller, quero te explicar o que é o desamparo, como ele se desevolve,
o que são crenças de desamparo e qual é a relação delas com a depressão.
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Vivenciamos o desamparo quando nos sentimos muito vulneráveis a uma ameaça e incapazes
de evitá-la. Algumas das reações mais espontâneas ao desamparo são o desânimo,
a desmotivação e a desesperança. Os primeiros estudos sobre o desamparo
ocorreram a partir da década de 1960. Eles eram feitos com animais, como cachorros e ratos,
e envolviam procedimentos nada bacanas como aplicar choques elétricos de baixa voltagem neles.
Em um desses estudos, os animais eram colocados em uma caixa na qual alguns deles recebiam choques,
enquanto outros, não. No começo, os animais que recebiam choques faziam de tudo para evitá-los.
Depois de um certo tempo, eles iam parando de reagir aos choques. Na próxima fase do estudo,
todos os animais eram colocados em uma caixa diferente na qual receberiam novos choques.
Se os animais andassem para outro compartimento dentro dessa caixa nova, eles conseguiriam evitar
os choques, só que os animais que já tinham parado de reagir aos choques na caixa anterior
não tentavam escapar deles nessa caixa nova. Para os pesquisadores, aqueles animais que haviam
recebido choques antes, mas que agora nem tentavam evitá-los mais, mesmo que isso fosse possível,
haviam desenvolvido aquilo que ficou conhecido como desamparo aprendido.
Esse desamparo costumava durar alguns dias e envolvia três sintomas principais:
os animais demoravam mais para exibir qualquer comportamento,
tinham dificuldade em aprender comportamentos novos e exibiam sinais de um humor negativo.
Estudos parecidos com esses foram feitos com seres humanos utilizando
estímulos como choques mais leves, barulhos altos ou tarefas impossíveis de resolver.
Muitos dos voluntários exibiram os mesmos sintomas que os animais: falta de motivação,
dificuldades de aprendizado e humor negativo. Curiosamente, alguns não exibiam esses sintomas,
mesmo depois de aprender que não dava para escapar dos estímulos aversivos.
Depois de outras pesquisas, ficou mais claro que um dos fatores que determina se a pessoa
sentirá o desamparo é como ela interpreta a sua falta de controle sobre o estímulo aversivo.
Se a pessoa acredita que não tem controle sobre a ameaça por causa de aspectos passageiros da
situação, é menos provável que ela se sinta desamparada. Alguém que vai mal em uma prova,
por exemplo, mas interpeta isso como resultado da febre que estava sentindo no dia da prova,
pode se manter esperançoso quanto ao seu desempenho futuro.
Caso a pessoa conclua que a sua falta de controle sobre a ameaça ocorre por causa
de alguma característica dela própria ou da realidade que não irá mudar,
ai as coisas se complicam. Se um indivíduo vai mal em uma prova e acha que isso ocorreu
porque ele é muito burro mesmo e não tem o que fazer, é mais provável que se sinta desamparado.
Essa tendência a explicar eventos negativos com base em aspectos passageiros ou duradouros da
própria pessoa ou do mundo à sua volta é o que psicólogos chamam de estilo de atribuição. Se
o estilo de alguém é mais voltado para explicar eventos negativos com base em
aspectos imutáveis de si mesmo ou do mundo, o desamparo será vivenciado com maior frequência.
Se coisas ruins acontecem porque a pessoa ou o mundo é de uma certa forma que supostamente
não irá mudar, isso significa que ela estará sempre vulnerável a vivenciar de novo essas
coisas ruins. Ter esse estilo de atribuição é um fator de risco para a depressão e contribui
para o desenvolvimento de crenças de desamparo. Elas são crenças de que a pessoa é vulnerável a
diferentes riscos, incompetente ou inferior aos outros. Quem nutre esse tipo de crença
pode se ver como alguém pouco capaz de se virar sozinho, enxergar o mundo como um
lugar muito hostil e sentir pouca esperança de que a sua vida irá melhorar algum dia.
Todas essas crenças são comuns em indivíduos com depressão e os sintomas desse transtorno podem ser
amenizados caso essas crenças sejam modificadas. Fazer isso não é fácil, ainda mais sozinho,
mas é possível fazer algum avanço e aqui vão algumas dicas de por onde começar.
Dica número 1: preste mais atenção no tipo de coisa que passa na sua cabeça
logo antes de você ficar mal. É comum que mudanças de humor ocorram logo depois que
certos pensamentos autodepreciativos ou negativos passem pela sua mente.
Se você está se identificando com as coisas que descrevemos sobre desamparo,
pode ser que esses pensamentos sejam algo como: "eu sempre estrago tudo",
"nada dá certo na minha vida", "o mundo é muito hostil" ou "eu não posso contar com ninguém".
Uma vez que você tenha anotado ao longo de alguns dias quais são esses pensamentos,
a dica número 2 é analisar o quão realistas eles são. Pensamentos como esses que são
derivados de crenças de desamparo costumam ser absolutos, irrealistas e inflexíveis,
não permitindo exceções. É sempre bom lembrar que
qualquer um desses pensamentos que passam pela sua cabeça e te deixam para baixo não são nada
além de uma interpretação da realidade dentre outras possíveis. Pensamentos não são fatos
objetivos, mas sim criações temporárias de um cérebro tentando interpretar a realidade.
Vamos pegar como exemplo o pensamento de que a pessoa "sempre estraga tudo". É bem
provável que essa pessoa ainda não tenha estragado absolutamente tudo na sua vida,
mas sim que tenha ficado muito chateado com algumas ocasiões em que estragou.
Dica número 3: avalie qual é o seu estilo de atribuição e tente flexibilizá-lo. Se você
se culpa por quase tudo o que acontece de ruim na sua vida, provavelmente você está
se dando mais crédito do que é justo. Pessoas que costumam apresentar esse
estilo de atribuição superestimam o quanto elas seriam capazes de influenciar no que aconteceu.
Coisas ruins acontecem com todo mundo e muitas vezes não havia o que fazer para evitá-las.
É super válido reconhecer a sua responsabilidade por acontecimentos negativos. A grande vantagem
nisso é que, ao perceber que você contribuiu para um evento negativo e que poderia ter
agido diferente, existe uma chance menor de repetir os mesmos erros no futuro.
O problema surge quando alguma distorção cognitiva se manifesta na hora de fazer esse julgamento,
como, por exemplo, quando alguém faz a supergeneralização de que sempre estraga
tudo e que está praticamente destinada a continuar repetindo isso no futuro.
Outro aspecto sobre o qual vale refletir é o quanto as suas explicações de eventos negativos
se baseiam em fatores fixos ou passageiros da realidade. Alguns acontecimentos ruins
decorrem de circunstâncias passageiras que não necessariamente se repetirão tanto no futuro,
mas muitos têm dificuldade em reconhecer isso. Muitas pessoas passam por maus bocados ao longo
da vida e desenvolvem crenças de desamparo. Dentre essas pessoas,
é comum que elas tenham visões bem negativas sobre si mesmas, a realidade e sintam uma grande
desesperança quando pensam no seu futuro. Mesmo percebendo que essas crenças não são
totalmente verdadeiras ou que são um tanto radicais, pode ser bem
difícil se livrar delas sozinho. Caso você se identifique com o que descrevemos no vídeo,
recomendamos que busque pela indicação de um bom profissional da psicologia para te ajudar nisso.
Todo mundo se sente desamparado diferentes vezes ao longo da vida, só que geralmente,
esse sentimento é passageiro e pouco prejudicial. Algumas pessoas nutrem
fortes crenças de desamparo como resultado das suas histórias de vida, as quais podem
prejudicar consideravelmente o bem estar, os relacionamentos e a qualidade de vida delas.
Como muitas dessas pessoas não possuem esperança de que as coisas possam melhorar ou acreditam
que não podem contar com a ajuda de ninguém, é muito mais difícil que a
situação delas melhore espontaneamente. Com a ajuda de um bom profissional,
é possível sim que as coisas melhorem. Eu falo mais sobre o potencial humano de
mudar no meu livro lindo e maravilhoso intitulado "Ser humano: Manual do usuário - As origens,
os desejos e o sentido da existência humana". Já é possível você adquirir ele no link que está aqui
embaixo, na descrição do vídeo. Em uma parte do livro, eu falo sobre
alguns dos potenciais mais abundantes da nossa espécie, como as nossas capacidades de aprender,
criar e superar obstáculos. Esse livro foi pensado especialmente para pessoas que nunca
estudaram psicologia antes, então se você se interessa pelos assuntos que a gente aborda
aqui no canal, não deixa de comprar ele! Muito obrigado a todos vocês que fazem
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Hoje nós falamos sobre o desamparo, como ele é aprendido em animais de laboratório
e em humanos. Também descrevemos as crenças de desamparo e como elas estão
relacionadas com a depressão. No final, demos algumas dicas de como alguém pode
começar a flexibilizar as suas crenças de desamparo e o seu estilo de atribuição.
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depressão é causada por um desequilíbrio químico de serotonina no cérebro? Será que isso é verdade?
A gente já fez um vídeo sobre isso aqui no canal e ele é um ótimo complemento ao vídeo de hoje.
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